“A Amiga Genial” – Elena Ferrante

Ler “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul) tornou-se um desafio para mim desde o dia 05.11, já nos primeiros minutos do voo de ida para o Mato Grosso: eu desejava estar mais dentro do livro do que no mundo que se apresentava fora dele. Te conto por que, vem comigo.

A autora italiana, Elena Ferrante, narra pela voz de outra Elena, também chamada de Lenu, o cotidiano da sua amizade com Lila. Elas vivem com suas famílias num bairro pobre e violento de Nápoles, pós 2ª Guerra Mundial, em apartamentos apertados e com vizinhos barulhentos, numa diária luta pela sobrevivência. Isso, assim, dito com essas palavras, uma atrás da outra, pode até parecer singelo, mas não é.

A amizade das duas tem início numa cena inusitada: ambas, aos 7 anos, respectivamente, jogam seu bem mais precioso naquele momento – as bonecas – num vão escuro e não conseguem recuperá-las.

Lila acredita que o responsável pelo sumiço é Dom Achille, o homem cuja riqueza de fins duvidosos impõe medo e respeito ao bairro. Enquanto marmanjos não tem a mesma coragem, Lila, acompanhada por Elena, bate em sua porta e exige as bonecas de volta. Dom Achille, sem entender o que se passa, limita-se a dar dinheiro para que elas comprem novos brinquedos. 

Dessa situação inesperada tem início o vínculo de Lenu, que é séria, meiga, com cachos loiros, belos olhos e corada, e Lila, morena, pálida e magra, com poucos atributos físicos na infância, mas que carrega consigo a magia e o brilho incomum, tem aguçada percepção do mundo e seduz as pessoas com sua inteligência e seu charme.

A amizade gera uma competição velada, que ao mesmo tempo as impulsiona, começa por quem consegue a melhor nota e recebe elogios da professora primária, até quem terá o primeiro namorado na adolescência. Elena só aceita ser menos inteligente que a amiga e Lila não aceita ser menos inteligente que ninguém, a não ser que por algum interesse deliberado faça se passar por incompetente.

O que mais me fascinou no livro foi o modo escancarado e precioso que a autora revelou as minúcias dessa amizade: a inveja e a competição estão presentes como válvulas propulsoras na vida das amigas, o que também gera uma íntima admiração e cumplicidade entre as duas, nessa relação de amizade cheia de nuances, que talvez apenas as mulheres serão capazes de compreender, eis que inevitavelmente já experimentaram as mesmas sensações descritas no livro:

“Não tinha saudades de meu pai, de meus irmãos, de minha mãe, das ruas do bairro, dos jardins. Sé me faltava Lila, Lila, que no entanto não respondia as minhas cartas”

Quando comecei a ler esse primeiro livro da tetralogia napolitana, ainda não sabia que a identidade da autora havia sido revelada, e falei para o meu marido sobre o mistério em torno do pseudônimo "Elena Ferrante", especulava-se que ela fosse um homem, eu disse “impossível que seja um homem, ele nunca saberia descrever com tanta precisão essa amizade e os sentimentos da narradora”.

Dias depois, a Carol, minha amiga, encaminhou a matéria com a revelação de que Elena Ferrante é uma tradutora italiana, que mora em Roma com a mãe. Bingo, uma mulher!

Aliás, para mim, cada parte do livro é um manifesto da multiplicidade e da complexidade do universo feminino, extirpando em cada palavra o lugar comum que a literatura às vezes lhe conferiu, de mulher-delicada–domesticada-submissa.

Um exemplo: ao falar sobre Lila, sua antiga professora diz a Lenu, com ares de desdém e precisa conclusão:

“A beleza que desde pequena Cerullo tinha na cabeça não encontrou saída, Greco, foi parar toda no rosto, nos peitos, nas coxas, na bunda, lugares onde passa depressa e é como se nunca tivesse existido”.

Esse primeiro livro desenrola-se pela adolescência das garotas e, pouco a pouco, marca os rumos diferentes de seus destinos: Elena segue seus estudos e Lina mantem-se no universo raivoso e previsível do bairro, sem muitas perspectivas a não ser buscar no casamento a tábua de salvação para si e sua família saírem da pobreza.

Mas no dia do seu casamento Lila insiste a Lenu que permaneça firme em seus estudos, determinada em nunca parar, para que ela sempre seja melhor que qualquer um do bairro, melhor que qualquer homem ou qualquer mulher que possa cruzar seu caminho.

Nesse momento fiquei em dúvida de quem é a amiga genial: Lila para Lenu, por todo o fascínio e impulso que dá a amiga, ou Lenu para Lila, por ter a perspectivas de uma vida nova além dos horizontes que conhecem.

Lenu de fato tem a ânsia de sair do bairro e experimentar vínculos diferentes daquelas que todos que estão ao seu redor vivem, a pobreza para ela não se limita à escassez dos bens materiais, estende-se às relações vingativas, superficiais e óbvias que seus familiares e vizinhos mantêm.

Para minha felicidade no dia 13.11, no voo de volta para São Paulo, entre pousos, decolagens e turbulências, terminei as últimas páginas de “A Amiga Genial”, entusiasmada para ler o segundo livro, “História do novo sobrenome”, e tudo mais que carregue o nome de Elena Ferrante na capa.